NOTÍCIAS
 
Entrevista: Suenia Sousa fala sobre a sua trajetória na construção sustentável
14/3/2019

O Dia Internacional da Mulher – celebrado oficialmente em 8 de março desde 1975 – não é simplesmente uma data comercial, seu real valor está em reconhecer e homenagear a luta de mulheres por direitos, igualdade de gênero e respeito em todos as camadas da sociedade. Apesar de ainda ter um longo caminho pela frente, é importante olhar para quem está batalhando dia após dia.

Neste ano, o Going Green Brasil traz três entrevistas exclusivas com mulheres que atuam no setor da construção sustentável, contribuindo não apenas para a disseminação deste mercado, como, também, para o fortalecimento da presença feminina em cargos de liderança e de destaque.

A primeira personagem é Suenia Sousa, nome de extrema referência quando o assunto é sustentabilidade. Nascida em Campina Grande (PB), é engenheira civil formada pela Universidade Federal da Paraíba e, atualmente, ocupa uma posição de liderança em uma das entidades mais conceituadas do País, responsável por desempenhar um papel essencial em prol do desenvolvimento sustentável: o Sebrae.

Suenia é gerente do Centro Sebrae de Sustentabilidade (CSS), situado em Cuiabá (MT), desde 2011. A unidade é referência nacional do Sistema Sebrae para o assunto. A profissional também foi a engenheira responsável pela construção do prédio, projetado como um laboratório vivo de práticas sustentáveis e que conquistou a certificação internacional BREEAM IN USE nível Excellent e Procel Edifica (Selo Procel Edificações) para projeto e construção, sendo reconhecido como o prédio em uso mais sustentável da América Latina no ano passado.

Conversamos com Suenia Sousa sobre a sua trajetória, sua visão sobre sustentabilidade e a importância do Sebrae para o crescimento de micro e pequenos negócios como base do País.

Olá, Suenia! Conte-nos um pouco sobre sua formação e experiência profissional.

Sou engenheira civil formada pela Universidade Federal da Paraíba em uma época em que a construção civil não tinha a percepção dos impactos que causava ao meio ambiente. Não se falava disso nos cursos de engenharia. Sempre preferi ser engenheira de obra, mas só quando cheguei ao mercado de trabalho foi que comecei a ver a quantidade de resíduos sólidos gerados ou quanto de material não se sabia a origem e nem para onde iria.

Minha primeira experiência foi no Acre, um Estado extrativista que se preocupava muito com a forma como se relacionava com os recursos naturais da Amazônia. A sustentabilidade lá era uma premissa. Trabalhei dentro de unidades de preservação ambiental e, assim, tive contato com este tipo de raciocínio. De onde vem o recurso? Para onde vai? O que ele impacta?

Quando vim para Estado de Mato Grosso eu tentei a mesma vinculação, só que não estava mais em um lugar que possuía este olhar. O Mato Grosso ainda tinha uma engenharia tradicional, na qual se começava a construir sem olhar para a quantidade de resíduos gerados, por exemplo. Naquela época a regulação e fiscalização também não eram presentes e existia um enorme desperdício. As pessoas brincavam que a cada três edifícios nós tínhamos desperdícios equivalentes a um prédio.

Isso me incomodava bastante. Foi então que resolvi fazer uma especialização em inovação para tentar modificar a forma de projetar e construir, pelo menos dentro do âmbito em que atuava. Eu já estava no Sebrae Mato Grosso neste período e sugeri que nós projetássemos e construíssemos olhando para todas as variáveis de resíduos, energia, água, bem-estar humano, etc. A entidade acolheu esta proposta e eu me especializei na área de construções sustentáveis.

O que é sustentabilidade para você e como ela esteve ligada ao seu desenvolvimento profissional?

Vejo como uma condição de equilíbrio para produzir bem-estar para todos os seres vivos, incluindo fauna e flora. Para viver bem é preciso ter um equilíbrio de onde você está com aquilo que vai fazer e o quanto isto vai impactar ambientalmente e socialmente. Equilibrar produção e consumo.

Acabei fazendo da sustentabilidade o meu estilo de atuação na engenharia de obras por causa do incômodo que sentia por ter uma profissão que impactava tanto o meio ambiente.

Como foi o início do seu trabalho no Sebrae MT até a posição que ocupa hoje?

Minha atuação sempre foi na área de engenharia, construindo e fiscalizando prédios. Eu vim para cá para construir um centro de eventos e as unidades da entidade no estado. A partir daí, adquiri uma capacidade de gestão bem sólida. Quando se está diante de obras de grande magnitude, é preciso ter habilidades administrativas, financeiras, de gestão de pessoas, etc., então, comecei a migrar para a área de gestão dentro do Sebrae MT.

O Sistema Sebrae Nacional resolveu implantar o Centro Sebrae de Sustentabilidade (CSS) por reconhecimento a expertise que o Sebrae MT adquiriu em termos de sustentabilidade dentro da gestão de negócios. Isso se tornou uma evidência, e, assim, foi fundado o CSS. Eu entrei na gerência deste centro, que, hoje, é uma referência nacional.

Qual é a sua visão sobre a participação feminina no mercado de construção e sustentabilidade?

Quando você me perguntou o que é sustentabilidade, eu respondi que é uma questão de equilíbrio entre produzir e consumir para gerar bem-estar. As mulheres já têm esta consciência naturalmente. Nós desempenhos muitos papéis dentro de nossas casas, em nossos trabalhos, nos relacionado com pessoas, etc. É como se nós equilibrássemos tudo.

E na sustentabilidade isso é um requisito. Acho que a participação das mulheres vem muito pela condição de vida e de características de desenvolver e lidar com estas habilidades. Quando iniciei minha vida profissional, notei que tínhamos que inverter o modo de trabalhar que já estava instituído – tudo era feito no modo automático, ou seja, realizar procedimentos e cumprir normas sem olhar as consequências.

Parar e pensar em cada situação é uma condição feminina. As mulheres têm esta percepção por natureza. Claro que tem muitos homens que também possuem, no entanto, somos mais habilidosas em olhar detalhes. Para reverter o quadro de um setor que desperdiçava cerca de 30% de todo o material, é necessário se atentar aos detalhes.

O que se notou é que entramos no mercado de arquitetura e construção sustentável mais fortemente. Temos muitas mulheres em cargos de gestores, gerentes e diretoras de sustentabilidade justamente por esta habilidade de olhar os detalhes e as variáveis de um projeto.

Qual é a importância de ter mulheres em posição de liderança, assim como você está atualmente?

Um dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU é a equidade de gêneros. Porque a ONU instituiu isso? Para termos condições iguais de trabalho e competência. Para mim, estar nessa posição é a sociedade ter capacidade de reconhecer a nossa competência de assumir uma cargo de liderança, com condições iguais às dos homens. Não existem diferenças de competências e habilidades técnicas e profissionais. É importante a sociedade reconhecer algo que já existe.

Qual é o papel do Sebrae para o desenvolvimento sustentável do setor do País, principalmente no que diz respeito aos pequenos negócios?

Os pequenos negócios são 98,5% da base econômica deste País. Nós temos oficialmente 14 milhões de micro e pequenas empresas. Imagina quantos não são oficiais, já que ainda temos uma informalidade muito grande. Só de bares e restaurantes associados são 780 mil oficialmente. Pensa no consumo e desperdício de água e energia e na construção de todos esses processos. Se formos para outros segmentos, como oficinas ou pousadas, os números também são grandiosos.

O impacto positivo dos pequenos negócios é primordial para alcançarmos as metas dos ODS. Se não houver adequação, condição de regulação, fomento e um aparato tecnológico para as micro e pequenas empresas em relação ao desenvolvimento sustentável, nós temos certeza de que as metas não serão alcançadas.

Os pequenos negócios são a base empresarial e de produção, além de representarem uma quantidade maior de empresas. Como alcançar resultados significativos se a maior parte de empresas não é tratada adequadamente?

Nossa missão é apoiar o Sistema Sebrae e facilitar o trabalho com os pequenos negócios na temática de sustentabilidade. A entidade deve dar condições para que os pequenos tenham chance de protagonismo no desenvolvimento sustentável do País. O CSS é estruturante de conteúdos e práticas de sustentabilidade para os pequenos negócios, portanto, desempenha um papel importantíssimo.

Quais foram os desafios na construção do Centro Sebrae de Sustentabilidade e quais resultados ela apresentou?

O desafio foi construir um prédio que fosse um laboratório vivo de práticas sustentáveis. Ele teria que mostrar para os pequenos negócios como fazer e implantar práticas sustentáveis a partir da sua arquitetura e construção. Ser um local voltado 100% à aprendizagem da gestão sustentável de negócios.

O projeto foi desafiador e contou com eficiência energética máxima, captação e reaproveitamento de água da chuva, materiais estudados durante todo o ciclo de vida, processos mais humanos, etc. Nada disso estava estabelecido na raiz na construção na época. Tivemos que fazer como se fosse um laboratório mesmo, pesquisando tudo durante o projeto.

Não era usual ter mulheres na obra e as trouxemos para dar todo aquele toque sobre detalhes e percepção feminina. Todo o processo foi registrado e disponibilizado em uma área de aprendizagem na sessão interativa do CSS.

Outro grande desafio foi a arquitetura vernacular, que traz um resgate de povos originários brasileiros. Neste caso, trouxemos o design de casas indígenas. Este projeto é diferente do ponto de vista de arquitetura, estrutura e engenharia, então, tivemos que dispor de uma equipe que estudasse como projetar e construir este tipo de edificação.

A nossa busca chegou a um arquiteto que é doutor em edificações indígenas brasileiras, ele tinha feito doutorado na Alemanha. Tudo ficou mais fácil com a habilidade de um profissional com esta expertise.

Hoje temos uma relevância enorme na arquitetura vernacular, porque a partir das características das casas indígenas brasileiras nós conseguimos o desempenho alcançado na certificação. Está interligado. Elas maximizam conforto ambiental, aproveitam água de chuva, possuem material reciclado, etc. Trouxemos esta qualidade de vida para o CSS.

O que representou a conquista da certificação e dos prêmios BREEAM para o projeto?

Esta conquista representa a garantia ao público de que ele pode confiar nos conceitos distribuídos aqui dentro. A certificação traz confiabilidade aos processos, atestados por profissionais especializados. O público e a sociedade confiam na qualidade dos prédios certificados devido à garantia de padronização e medição de cada quesito disposto.

Nós alcançamos uma performance que nos deu o título de melhor edificação da América do Sul pelo BREEAM. Também temos o Selo Procel Edificações. Ficamos felizes por ter este reconhecimento, principalmente por ser uma tecnologia totalmente brasileira, além de utilizar a arquitetura e engenharia a serviço do desenvolvimento sustentável.

Como a sustentabilidade evoluiu nestes últimos 10 anos?

Nós migramos da condição de ter a palavra sustentabilidade ligada às questões puramente ambientais – onde a fala de direito era de pessoas especializadas e ativistas ambientais – para uma condição onde cada um possui um papel e uma responsabilidade no desenvolvimento sustentável da sociedade.

Sociedade, empresas, indivíduos, governo… nestes últimos 10 anos chegamos à conclusão de que o resgate do bem-estar é de responsabilidade igual para todos estes agentes.

As consequências de mudanças climáticas, da falta de recursos naturais e dos desastres ambientais – vide o que aconteceu no Brasil no começo do ano – são graves para a sociedade, as empresas, o governo e para cada um de nós.

Qual é o futuro da sustentabilidade?

Sustentabilidade é uma necessidade de prática e de estratégias para que a gente chegue a um patamar de bem-estar da sociedade. Nós havíamos entrado em um eixo de piloto automático quando o assunto era produção e consumo. E hoje temos que parar e pensar no que devemos fazer.

No futuro, a sustentabilidade deve ser lembrada naturalmente, sem ser preciso parar e pensar no que devemos fazer. O conceito deve estar instituído na sociedade e seus indivíduos, presente na nossa vida como um algo comum. É realmente incorporar a sustentabilidade no nosso dia a dia.

Fonte: Going Green Brasil

 

Notícias anteriores

 
Abrinstal - Associação Brasileira pela Conformidade e Eficiência de Instalações